Pessoa a falar enquanto utiliza um aparelho auditivo

Porque é que a minha própria voz soa estranha com aparelhos auditivos?

“Parece que estou a falar dentro de uma caixa.”

“A minha voz está muito alta.”

“Sinto a voz dentro da cabeça.”

“Parece que tenho os ouvidos tapados.”

Quem começa a utilizar aparelhos auditivos pode estranhar não apenas os sons à sua volta, mas também a própria voz.

É uma sensação que pode ser difícil de descrever. Para algumas pessoas, a voz parece mais forte. Para outras, mais grave, oca ou abafada. Há quem note mais a própria mastigação ou até a respiração.

Esta alteração não significa automaticamente que exista um problema com os aparelhos.

Nos primeiros dias existe naturalmente um período de adaptação a uma nova experiência sonora. Mas há também situações em que a percepção da própria voz está relacionada com a forma como o ouvido ficou fisicamente mais fechado, com o ajuste realizado ou com uma combinação de vários factores.

Por isso, se a sua voz continuar muito incómoda, a solução não é simplesmente “aguentar até se habituar”.

Vale a pena perceber o que está a acontecer.

Porque é que a nossa própria voz é diferente das outras?

Normalmente não ouvimos a nossa voz exactamente da mesma forma que as outras pessoas a ouvem.

Quando falamos, o som chega ao ouvido por mais do que uma via. Parte viaja pelo ar, tal como acontece quando ouvimos outra pessoa, mas também existem vibrações transmitidas através das estruturas da cabeça.

É uma das razões pelas quais ouvir uma gravação da nossa voz pode parecer tão estranho.

Ao colocar algo no canal auditivo — como determinado tipo de oliva, molde ou aparelho — a forma como parte dessa energia sonora sai do ouvido pode mudar.

O resultado pode ser uma voz que parece mais grave, cheia, oca ou “presa dentro da cabeça”.

Este fenómeno é conhecido como efeito de oclusão.

O que é o efeito de oclusão?

Imagine tapar ligeiramente os dois ouvidos com os dedos e começar a falar.

A sua voz muda.

Pode parecer mais grave e muito mais presente dentro da cabeça.

Esse exemplo não reproduz exactamente o que acontece com um aparelho auditivo, mas ajuda a compreender a sensação.

Quando o canal auditivo fica mais fechado, parte da energia de baixa frequência gerada pela própria voz deixa de escapar tão facilmente para o exterior.

Essa energia pode ficar mais presente dentro do canal e alterar a percepção da voz.

Curiosamente, o efeito de oclusão não é necessariamente provocado pela amplificação electrónica do aparelho.

Pode existir mesmo quando o aparelho está colocado no ouvido mas não está a amplificar som.

É uma distinção importante.

Porque “a minha voz está demasiado forte” pode ter mais do que uma causa.

Aparelho auditivo colocado no ouvido durante a adaptação à própria voz

Nem toda a voz estranha é efeito de oclusão

Nos primeiros dias, tudo é novo.

Durante bastante tempo, a pessoa pode ter ouvido a própria voz e os sons envolventes de uma determinada maneira.

Quando começa a utilizar aparelhos auditivos, passa a receber uma informação sonora diferente.

A própria voz também pode estar a ser amplificada.

Por isso, duas pessoas que descrevem exactamente a mesma sensação — “a minha voz está muito alta” — podem não estar a sentir exactamente o mesmo fenómeno.

Num caso pode existir um efeito de oclusão.

Noutro, a amplificação de determinadas frequências pode estar a contribuir para a sensação.

Noutro ainda, pode existir simplesmente uma combinação de novidade e adaptação ao novo som.

É uma das razões pelas quais não é boa ideia tentar resolver esta questão apenas reduzindo o volume por conta própria.

A sensação pode melhorar com a adaptação?

Pode.

Nos primeiros dias, o cérebro está a receber e a interpretar uma experiência sonora diferente daquela a que estava habituado.

A própria voz pode chamar imediatamente a atenção precisamente porque está presente durante grande parte do dia.

Ao longo da utilização, algumas pessoas deixam progressivamente de reparar tanto nela.

É semelhante ao que pode acontecer com outros sons quotidianos durante a adaptação aos aparelhos auditivos: inicialmente parecem muito evidentes e, com o tempo, passam a ocupar novamente um lugar mais natural no ambiente sonoro.

Mas existe uma nuance importante.

Adaptação não significa que qualquer nível de desconforto deva ser aceite indefinidamente.

Se a sua própria voz continua muito oca, excessivamente forte ou desconfortável depois de algum tempo de utilização, vale a pena falar sobre isso no acompanhamento.

Como descrever aquilo que está a sentir?

“A minha voz está estranha” é um bom ponto de partida.

Mas quanto mais concreta for a descrição, mais útil se torna.

Tente perceber se a voz parece:

  • demasiado alta;
  • muito grave;
  • abafada;
  • oca;
  • com eco;
  • como se estivesse “dentro da cabeça”;
  • diferente apenas quando utiliza os dois aparelhos;
  • diferente apenas num ouvido;
  • desconfortável durante toda a utilização ou apenas em determinados momentos.

Pode reparar ainda noutras sensações.

A mastigação parece excessivamente forte?

O som dos seus próprios passos parece muito presente?

Ouve mais a respiração?

Sente fisicamente o ouvido demasiado tapado?

Estas observações ajudam a orientar o acompanhamento.

A oliva ou a forma como o ouvido fica fechado pode influenciar?

Sim.

A forma como o aparelho se liga ao ouvido é uma parte importante da adaptação.

Dependendo da perda auditiva e da solução utilizada, o encaixe pode ser mais aberto ou mais fechado.

Um encaixe mais fechado pode ser necessário em determinadas situações para permitir que o aparelho forneça a amplificação necessária.

Noutras situações, uma configuração mais aberta pode ser possível.

A ventilação do ouvido pode influenciar o efeito de oclusão.

Soluções mais abertas podem permitir que parte da energia de baixa frequência escape do canal auditivo, reduzindo a sensação de voz “presa” em alguns utilizadores.

Mas isto não significa que deva trocar a oliva por uma mais aberta por sua iniciativa.

Uma alteração deste género pode também modificar o som que chega ao ouvido, a amplificação disponível e até aumentar o risco de feedback.

O tipo de encaixe deve ser compatível com a perda auditiva e com o ajuste realizado.

A forma como os aparelhos auditivos se ligam ao ouvido também influencia a experiência sonora.

Então basta abrir mais o ouvido?

Nem sempre.

Seria uma solução muito simples — mas a adaptação auditiva raramente se resume a uma única variável.

Uma adaptação mais aberta pode ajudar a reduzir o efeito de oclusão em algumas pessoas.

Mas pode não ser adequada para todas as perdas auditivas.

Se for necessária uma determinada quantidade de amplificação, sobretudo em determinadas frequências, abrir demasiado o encaixe pode permitir que parte desse som escape.

Pode também afectar outros aspectos do funcionamento dos aparelhos.

É precisamente por isso que a solução deve ser individualizada.

A perda auditiva identificada na avaliação auditiva ajuda a determinar que tipo de adaptação e amplificação faz sentido para cada pessoa.

O objectivo não é apenas fazer com que a própria voz soe melhor.

É conseguir um equilíbrio entre:

  • conforto;
  • qualidade sonora;
  • audibilidade;
  • compreensão da fala;
  • estabilidade do aparelho;
  • necessidades auditivas daquela pessoa.

“Mexi no volume e ficou melhor.” Isso resolve?

Pode mudar a sensação, mas não necessariamente resolver a causa.

Se o problema estiver relacionado sobretudo com a amplificação, alterar o ajuste pode efectivamente influenciar a percepção da própria voz.

Mas se existir um verdadeiro efeito de oclusão, simplesmente reduzir determinadas frequências não corrige necessariamente o fenómeno físico que está a acontecer no canal auditivo.

Além disso, reduzir a amplificação sem critério pode significar perder informação sonora que era necessária para ouvir melhor.

Por isso, se sente necessidade constante de baixar o volume porque não suporta a própria voz, é uma informação importante para comunicar no acompanhamento.

Em vez de procurar apenas tornar o aparelho mais baixo, é preferível perceber por que razão a voz está desconfortável.

Não tenha receio de dizer que a própria voz o incomoda

É uma informação útil.

Por vezes, quem está a começar a utilizar aparelhos auditivos pensa que precisa simplesmente de aceitar tudo o que sente porque “é normal no início”.

Há, de facto, um período de habituação.

Mas o acompanhamento existe precisamente para identificar o que faz parte dessa adaptação e o que pode beneficiar de um ajuste.

Pode dizer exactamente:

“Consigo ouvir melhor as outras pessoas, mas não gosto de como a minha própria voz soa.”

Ou:

“A minha voz parece demasiado grave e sinto o ouvido tapado.”

Ou ainda:

“Ao fim de algumas horas continuo muito consciente da minha voz.”

Estas frases fornecem informação muito mais útil do que retirar os aparelhos e deixá-los na gaveta.

Não experimente resolver alterando peças sozinho

É tentador procurar rapidamente uma solução.

Trocar uma oliva.

Retirar uma peça.

Abrir um componente.

Alterar várias definições.

Mas a ligação entre o aparelho e o ouvido faz parte do sistema acústico.

Uma modificação que aparentemente melhora um aspecto pode prejudicar outro.

Aumentar a ventilação, por exemplo, pode reduzir a oclusão em determinadas situações, mas também altera a forma como o som amplificado se comporta no ouvido.

Se a própria voz é o principal problema, explique isso no acompanhamento antes de alterar fisicamente o sistema.

É importante avaliar a própria voz em situações reais

Uma frase dita durante alguns segundos num gabinete não reproduz necessariamente aquilo que vai sentir durante várias horas.

No quotidiano, vai:

  • conversar;
  • rir;
  • falar ao telefone;
  • comer;
  • caminhar;
  • ouvir-se em ambientes silenciosos;
  • falar em locais com outras pessoas.

É precisamente por isso que experimentar aparelhos auditivos durante 15 dias pode fornecer informação tão útil.

A experiência em situações reais permite perceber se a sensação inicial vai diminuindo naturalmente e, ao mesmo tempo, identificar aquilo que continua a incomodar.

Durante esse período, não precisa de analisar obsessivamente cada som.

Mas vale a pena guardar duas ou três observações concretas para o acompanhamento.

Quando devo pedir um ajuste?

Não existe um número exacto de dias após o qual a própria voz “tem” de soar natural.

A adaptação varia entre pessoas.

Mas deve falar sobre o assunto se a sensação for suficientemente incómoda para:

  • evitar falar;
  • reduzir muito o tempo de utilização;
  • retirar frequentemente os aparelhos;
  • usar apenas um aparelho;
  • baixar constantemente o volume;
  • sentir que não consegue habituar-se;
  • pensar em desistir da utilização.

Não é necessário chegar ao ponto de desistir.

Verificação do ajuste de um aparelho auditivo

Um ajuste não significa que os aparelhos foram mal escolhidos

Também é importante perceber isto.

O primeiro ajuste é feito com base na avaliação auditiva e numa série de parâmetros técnicos.

Mas depois entra uma variável que nenhum equipamento consegue reproduzir completamente:

a sua vida real.

Como soa a sua própria voz.

Como acompanha uma conversa ao jantar.

Como se sente numa sala silenciosa.

Como percebe uma pessoa num café.

Como reage ao fim de várias horas.

Estas experiências fornecem informação adicional.

Por isso, voltar para um ajuste não significa necessariamente que algo correu mal.

Faz parte do processo de transformar uma configuração tecnicamente adequada numa solução que funcione confortavelmente no quotidiano.

A própria voz também faz parte de uma boa adaptação

O objectivo dos aparelhos auditivos não é apenas tornar os sons externos mais audíveis.

É permitir que a audição se integre na vida diária de forma confortável e útil.

E isso inclui a sua própria voz.

Nos primeiros dias, alguma estranheza pode ser perfeitamente compatível com o processo de adaptação.

Mas uma voz persistentemente oca, excessivamente forte ou desconfortável merece ser referida.

Pode existir margem para ajustar a configuração, rever o encaixe ou simplesmente acompanhar a evolução durante mais algum tempo.

O importante é não assumir que existem apenas duas opções:

“Tenho de suportar isto.”

ou

“Os aparelhos não são para mim.”

Há uma terceira opção, muitas vezes muito mais útil:

explicar exactamente aquilo que está a sentir e ajustar a experiência consigo.

A sua própria voz continua desconfortável com os aparelhos?

Não precisa de decidir sozinho se é apenas habituação ou se o ajuste deve ser revisto. Explique-nos exactamente aquilo que está a sentir.

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