O meu familiar não ouve bem: como abordar o assunto sem criar resistência
“Já te disse isso três vezes.”
“Põe a televisão mais baixo.”
“Não ouves nada do que eu digo.”
Frases deste género aparecem facilmente quando começa a existir uma dificuldade auditiva dentro de uma família.
Às vezes surgem como brincadeira. Outras vezes já vêm acompanhadas de alguma frustração.
Quem está de fora pode reparar que é necessário repetir frases com frequência, que a televisão está progressivamente mais alta ou que a pessoa parece acompanhar pior uma conversa à mesa.
Mas há uma diferença importante entre notar uma possível dificuldade auditiva e saber como falar sobre ela.
Dizer simplesmente “tu não ouves bem” raramente é a melhor forma de começar.
Uma abordagem mais útil passa por falar sobre situações concretas, escolher um momento tranquilo e permitir que a própria pessoa participe na decisão sobre o que fazer a seguir.
Porque é que a família muitas vezes repara primeiro?
A perda auditiva pode desenvolver-se gradualmente.
Quando isso acontece, a pessoa vai adaptando alguns comportamentos sem necessariamente perceber a mudança.
Pode aumentar ligeiramente o volume da televisão.
Pode aproximar-se mais de quem está a falar.
Pode começar a preferir determinados lugares à mesa.
Pode pedir repetições.
Ou pode simplesmente preencher mentalmente aquilo que não ouviu e continuar a conversa.
Quem convive diariamente com essa pessoa compara, mesmo sem querer, o comportamento actual com aquilo que acontecia há alguns anos.
É por isso que familiares e amigos podem ser os primeiros a reparar em determinadas alterações.
Entre os sinais frequentemente associados a dificuldades auditivas estão pedir às pessoas para repetirem o que disseram, ter dificuldade em acompanhar conversas com várias pessoas, perceber pior a fala com ruído de fundo ou precisar de um volume de televisão que incomoda outras pessoas.
Nenhum destes sinais, isoladamente, permite fazer um diagnóstico.
Mas podem justificar uma conversa e, se persistirem, uma avaliação adequada.
Se quiser perceber melhor quais os comportamentos a que deve estar atento, veja também os principais sinais de perda auditiva.
Comece pelas situações, não pelo problema
Existe uma grande diferença entre dizer:
“Tu estás a ficar surdo.”
e dizer:
“Tenho reparado que nos jantares tens tido mais dificuldade em perceber o que estamos a dizer quando falamos todos.”
Na primeira frase existe uma conclusão.
Na segunda existe uma observação.
Esta distinção é importante porque a conversa deixa de ser uma tentativa de convencer alguém de que “tem um problema” e passa a ser uma conversa sobre aquilo que está efectivamente a acontecer.
Pode falar de situações como:
- necessidade frequente de repetir frases;
- televisão mais alta do que anteriormente;
- dificuldade em perceber conversas num restaurante;
- respostas que parecem não corresponder ao que foi perguntado;
- dificuldade em acompanhar várias pessoas ao mesmo tempo;
- tendência para evitar algumas situações sociais.
Escolha dois ou três exemplos concretos.
Não é necessário apresentar uma lista completa de tudo o que a pessoa “faz mal”.
Escolha também o momento certo
Falar sobre audição imediatamente depois de uma conversa frustrante costuma ser pouco produtivo.
Imagine que acabou de repetir a mesma frase três vezes.
É precisamente nesse momento que é mais fácil surgir:
“Estás a ver? Nunca ouves nada.”
Mas também é o momento em que ambos estão provavelmente irritados.
Se o assunto é importante, vale mais abordá-lo noutra altura.
Escolha:
- um momento tranquilo;
- um ambiente sem televisão ou rádio;
- uma conversa a dois, se possível;
- um local onde consigam ver bem o rosto um do outro.
O ruído de fundo pode tornar a própria conversa mais difícil para alguém com perda auditiva.
Neste caso, essas condições ajudam ainda por outra razão: tornam a conversa menos tensa e mais privada.
Evite transformar a audição numa discussão sobre quem tem razão
Uma situação muito comum é esta:
— Eu disse-te isso ontem.
— Não disseste nada.
— Disse sim. Tu é que não ouviste.
Neste ponto, já ninguém está realmente a falar sobre audição.
Estão a discutir sobre quem tem razão.
É perfeitamente possível que a frase tenha sido dita e não tenha sido percebida. Também é possível que tenha sido dita noutra divisão, enquanto a televisão estava ligada ou quando a pessoa não estava a olhar para quem falava.
Provar quem tem razão não resolve a dificuldade.
Se episódios deste género começam a repetir-se, pode ser mais útil dizer:
“Isto tem acontecido algumas vezes. Talvez valha a pena perceber se existe alguma dificuldade auditiva.”
O objectivo não é ganhar a discussão.
É perceber o que está a tornar a comunicação mais difícil.
“Eu oiço perfeitamente” pode não significar que não existe dificuldade
Uma pessoa pode ouvir muitos sons e, ainda assim, ter dificuldade em compreender determinadas palavras.
Isto é particularmente perceptível quando existe ruído de fundo, várias pessoas falam ao mesmo tempo ou algumas vozes são mais difíceis de distinguir.
Por isso, alguém pode responder sinceramente:
“Eu ouço.”
E pode, de facto, ouvir.
A dificuldade pode estar sobretudo em perceber claramente o que foi dito.
É uma distinção importante porque evita reduzir toda a questão à ideia de “ouvir” ou “não ouvir”.
Se esta situação lhe é familiar, pode ser útil perceber porque é possível ouvir mas ter dificuldade em compreender uma conversa.
Não grite para tentar ajudar
Falar muito mais alto parece uma solução intuitiva.
Nem sempre é.
Pode ser mais útil falar claramente, manter um tom natural, estar de frente para a pessoa e reduzir o ruído de fundo.
Experimente antes:
- chamar a atenção da pessoa antes de começar a falar;
- estar na mesma divisão;
- falar de frente;
- não tapar a boca;
- reduzir televisão ou rádio;
- evitar falar enquanto está a mastigar;
- reformular a frase quando repetir exactamente as mesmas palavras não resulta;
- tentar que apenas uma pessoa fale de cada vez.
São pequenas alterações, mas podem fazer uma diferença significativa numa conversa.

Reformular pode resultar melhor do que repetir exactamente a mesma frase
Imagine:
— A que horas vamos sair amanhã?
— O quê?
A tendência é repetir:
— A QUE HORAS VAMOS SAIR AMANHÃ?
Se mesmo assim não resultar, muitas vezes continuamos a repetir exactamente a mesma construção.
Pode ser mais eficaz mudar as palavras:
“Amanhã, quando é que queres sair de casa?”
O contexto muda ligeiramente e fornece outras pistas para compreender a mensagem.
Não fale pela pessoa sem necessidade
Quando um familiar acompanha alguém a uma avaliação ou consulta, é fácil começar a responder por ele.
“Ela não ouve nada quando estamos à mesa.”
“Ele põe sempre a televisão altíssima.”
“Ela nunca percebe o que os netos dizem.”
Estas observações podem ser úteis.
Mas a pessoa que está a ser avaliada deve continuar no centro da conversa.
Pode acrescentar aquilo que observa.
Mas não precisa de substituir a voz da pessoa.
E se o familiar disser que não quer fazer uma avaliação?
Pode acontecer.
Insistir repetidamente no mesmo dia dificilmente melhora a situação.
Pode ser mais útil explicar por que razão está a sugerir uma avaliação.
Por exemplo:
“Não estou a dizer que precisas de aparelhos. Gostava apenas que percebêssemos se realmente existe alguma alteração na audição.”
Uma avaliação auditiva serve precisamente para perceber como está a audição e compreender melhor eventuais dificuldades.
Não obriga ninguém a comprar aparelhos auditivos.
Não obriga a tomar uma decisão naquele momento.
E pode ajudar a substituir suposições por informação concreta.
Se a pessoa não estiver preparada, pode deixar o assunto em aberto e retomá-lo mais tarde, em vez de transformar cada dificuldade de comunicação numa nova discussão sobre audição.
Oferecer companhia pode ser mais útil do que insistir
Para algumas pessoas, marcar uma avaliação por iniciativa própria representa um passo maior do que parece.
Nesse caso, uma proposta simples pode ajudar:
“Se quiseres, vou contigo.”
Um familiar pode ajudar a recordar situações específicas, fazer perguntas e tomar notas, desde que a pessoa que está a ser avaliada queira esse acompanhamento.
A ideia é acompanhar.
Não decidir por ela.

Enquanto não existe avaliação, facilite a comunicação em casa
Mesmo antes de saber exactamente o que se passa, pode tornar algumas conversas mais fáceis.
Desligue o ruído que não é necessário
Se ninguém está a ver televisão, desligue-a durante a conversa.
O mesmo vale para rádio, música ou outros sons de fundo.
Fale quando estiver visível
Dizer qualquer coisa da cozinha enquanto a outra pessoa está na sala pode funcionar mal mesmo para quem ouve bem.
Quando existe dificuldade auditiva, torna-se ainda mais exigente.
Não fale de costas
Ver o rosto, expressões e movimentos da boca fornece informação adicional importante durante uma conversa.
Num grupo, evitem falar todos ao mesmo tempo
Uma refeição familiar pode ser particularmente difícil quando existem várias conversas em simultâneo.
Dar espaço para uma pessoa acabar antes de outra começar torna a conversa mais fácil de acompanhar.
Pergunte o que ajuda
Nem todas as pessoas beneficiam exactamente das mesmas estratégias.
Uma pergunta simples pode resolver muito:
“É mais fácil se eu falar daqui ou me sentar à tua frente?”
Comunicação é uma responsabilidade partilhada.
Há situações em que não deve simplesmente esperar por uma avaliação de rotina
Grande parte das dificuldades auditivas desenvolve-se gradualmente.
Mas uma perda de audição súbita ou uma diminuição muito rápida da audição deve ser tratada de forma diferente.
Se uma pessoa nota uma redução súbita significativa da audição, não deve simplesmente aguardar para ver se passa nem limitar-se a marcar uma avaliação auditiva de rotina.
Deve procurar assistência médica com brevidade.
A conversa deve preservar a autonomia da pessoa
É natural querer ajudar alguém de quem gostamos.
Mas existe uma diferença entre ajudar e decidir por essa pessoa.
Pode notar as dificuldades.
Pode explicar aquilo que observa.
Pode facilitar as conversas.
Pode oferecer-se para acompanhar uma avaliação.
Pode procurar informação.
Mas a pessoa continua a ter um papel central nas decisões sobre a sua audição e sobre qualquer solução que venha a considerar.
É precisamente por isso que expressões como:
“Vamos perceber o que se passa.”
tendem a ser mais úteis do que:
“Tens de comprar aparelhos.”
Uma avaliação pode revelar se existe perda auditiva, qual a sua natureza e que próximos passos fazem sentido.
Só depois existe informação suficiente para discutir soluções.
Por vezes, ajudar começa simplesmente por mudar a forma como falamos
Quando existe uma possível dificuldade auditiva numa família, é fácil a comunicação transformar-se numa sequência de repetições, irritação e mal-entendidos.
Não precisa de ser assim.
Falar de frente.
Reduzir o ruído.
Reformular em vez de gritar.
Escolher um momento tranquilo para abordar o assunto.
Descrever situações concretas em vez de colocar rótulos.
E permitir que a própria pessoa faça parte de todas as decisões.
São mudanças simples, mas tornam a conversa sobre audição muito mais fácil.
Se começou a notar dificuldades auditivas num familiar, uma avaliação pode ser uma forma tranquila de perceber o que realmente está a acontecer — sem pressupor antecipadamente qual será a resposta.
Se procura uma avaliação da audição em Alverca, pode também conhecer a abordagem da Audição+ e esclarecer as suas dúvidas antes de decidir o próximo passo.
Tem dúvidas sobre a audição de alguém próximo?
Se começou a notar dificuldades no dia-a-dia, uma avaliação pode ajudar a perceber o que realmente está a acontecer, sem assumir antecipadamente que será necessário utilizar aparelhos auditivos.
